quarta-feira, 30 de abril de 2003

Perfis do PNS II/Paulinho do Cavaco

O Paulinho é um sujeito muito paciente, educado ou seja, possui as condições para ser um músico do povo, para atender e alegrar a nossa gente tão maltratada. Como ninguém é perfeito o nosso entrevistado é torcedor do São Paulo e do Fluminense, nascido em Marabá Paulista, nas barrancas do rio Paranapanema, na região de Presidente Prudente.

Mudou-se para São Paulo, vindo residir na região oeste, no bairro do Jaguaré, Rio Pequeno. Foi bicando em outros músicos que o Paulinho resolveu tocar cavaquinho e conseguiu logo um cavaquinho xadrez, formou o grupo Acalanto que contou com os seguintes músicos: Paulinho (cavaquinho), Caio Prado(banjo),Fabio (rebolo), Wilsinho (pandeiro), Orlando( violão), Gigio (surdo), Arthur (reco-reco), Edu (contrabaixo).

Participou de disputas de samba na quadra da escola Unidos do Peruche, organizadas pelo JB bar da Waldemar Ferreira, apresentaram seus sambas na quadra, junto a Moisés da Rocha e Evaristo de Carvalho.

Portanto, muito respeito quando vocês encontrarem um sujeito baixinho, hoje osasquense, com boné de malandro abraçado a um cavaquinho, autor de mais de quarenta sambas, uma pessoa que jamais nega um acorde, uma melodia, capaz de atender os pedidos surpreendentes de tudo quanto é 'desalmado da garoa'. É um tipo surpreendente, mantém a tradição dos maiores artistas do povo, gente como Jair do Cavaquinho, Manacéa, Casquinha, Alberto Lonato, Chatim, Coringa e tantos músicos adoráveis que só a nossa terra pode gerar.

Os músicos de cordas, são a verdadeira alma da musica brasileira, observando nas rodas de samba, os tocadores de cavaquinho, estão entre os homens mais ternos e delicados de uma irmandade musical profunda que são: o samba e o choro. Cientes, que são a alma do samba, esses músicos, tomam o cuidado de tirar suavemente os acordes musicais e espetá-los diretamente no coração dos participantes da roda de samba. Os tocadores de cavaquinho, eternizam as alegrias e mágoas de qualquer rejeitado do mundo, eles que conseguem fazer as pessoas sorrirem , sonharem com a imagem sonora do cavaquinho.

O cavaquinho, traz sempre felicidade a todos, traz esperança e sonho de amor eterno. A rapaziada do projeto Nosso Samba, fez um esforço 'imenso' para passar uma tarde de sábado, entre loiras 'suadas' e 'branquinhas' baixinhas, entrevistando o músico e poeta Paulo Pontes. O encontro realizado no botequim do Toninho no Jardim Umarizal. Presentes nesta entrevista os sambistas: Wagner Alves, Robério, Biulla, SelitoSD, Marcelo B., Ninão, Gutão, Paquera, Emerson Urso, Enéas Marques, aparecendo de surpresa o incrível poeta Caio Prado. Esta entrevista foi 'psicografada' pelo bicudo Rubão.

Wagner Alves - Como é o samba para você ?

PP - Na minha terra, tem grandes bambas, mas hoje estão no esquecimento, foram duramente perseguidos, por defender uma arte, uma causa nobre. Salve a velha-guarda de São Paulo, o meu respeito e gratidão pelas obras que deixaram.

Paquera - A musica tem algum poder?

PP - Tomara que o poder da música, soe como um encantamento. E assim serei o dono dela, eu lhe darei o universo, pintarei uma aquarela que represente o amor. Vieste ao mundo para ser a minha amada, adorada do princípio ao fim.

Robério - O que é uma grande roda?

PP - O samba que alimenta a inspiração, com pandeiro e tamborim, bem serenados. Cabrochas saltitando no botequim.

Caio Prado - O que você pensa da cultura popular?

PP - Nem só no morro tem samba, compositores e bambas, partido e versos de improviso. O asfalto também apresenta uma boa qualidade musical. Muito além do desfile de carnaval, a cultura não escolhe lugar para nascer.

SelitoSD - O que é uma madrugada?

PP - É a aurora rompendo, é o alvorecer. É como o encontro das águas, entre o rio e o mar. O meu universo, as estrelas em tempo de lua cheia, é o samba se juntando com o jongo no terreiro.

Biulla - É duro viver da 'madrugada'?

PP - Este meu instinto libertário, é que me fez decidir. Não mais ficar atado ao casamento, já que pra mim é tormento. Viver sem a boemia, já disse pra nega que lamento, que não dá mais, não agüento ficar longe da orgia.

Emerson Urso - Qual seu compositor preferido?

PP - Do Morro de Mangueira, desciam Carlos Cachaça, Cartola e com "Prazer" Heitor, iam levar poesia a toda sociedade. Porém, essa gente não sabia, que nas veias desses homens, corria a mais nobre cultura. Ao ouvir cartola relembro os sambas autênticos de outrora, tocados com simplicidade, nas cordas do seu violão, poesia dos tempos idos, exaltadas na forma de canção. A mangueira não morreu, nem morrerá, isto não acontecerá. Teu seu nome na história, Mangueira tu és um cenário coberto de glórias.

Biulla - Você se referiu ao Cartola, mas qual sua verdadeira escola de samba?

PP - Portela, seu manto azul é o meu céu, trazendo as suas pastoras e os seus estandartes de ouro, orgulho de toda uma nação.

Robério - O sofrimento de amor passa?

PP - Estou bem mais ciente, mas antes não entendia. A vida me ensinou a superar..a covardia. Ela levou toda a nossa tralha, bancou a canalha. Me deixou sem eira, nem beira. Ela abusou, fez papel de louca. A nega pelou meu bangalô, levou ' echarpe' que eu dei a ela, todo móvel de primeira, a porcelana chinesa levou, levou o tapete importado, um tremendo prejuízo , o barraco do avesso virou, levou minha paz e o meu sossego.

Enéas Marques - O que mais satisfaz ao poeta?

PP - Colar minhas mãos ao teu corpo. Me sentir envolto com tanto prazer. Prazer é ter você, poder te ver feliz. O nosso amor eu comparo, ao gosto de um beijo, que insinua e aumento os nossos desejos.

SelitoSD - Você jura eterno amor?

PP - Jurar é fácil. Cumprir é que as vezes não dá. Nessa vida eu aprendi, que ' jurar fácil dá castigo'.

Paquera - E quando aparece um sujeito desagradável, inconveniente 'numa noitada'?

PP - Eu tenho a madrugada e o meu violão. Não é você que vai tirar minha inspiração!

Caio Prado - Poeta vive de sonho?

PP - A realidade chegou em mim, tarde demais. Na juventude fui um grande sonhador. Procurei liberdade, sem pensar no amanhã. Hoje não tenho mais ninguém ao meu redor. Ando vagando sem saber qual o destino, em desalinho deixo a vida me levar. Feito criança abandonada, a mocidade eu não posso retornar.

Biulla - O que é uma madrugada?

É a aurora rompendo, é o alvorecer. É como o encontro das águas, entre o rio e o mar. O meu universo, as estrelas em tempo de lua cheia, é o samba se juntando com o jongo no terreiro.

Wagner Alves - Os poetas são sinceros?

PP - Já fui torturado pelo tempo, as rugas e amarguras foram os meus 'troféus', cansei de tropeçar em falsas juras, depois de tantos desvios sou merecedor de um amor sincero.

Ninão - Como um poeta do povo, como você vê a situação atual do Brasil e do povo brasileiro?

PP- Vejo a maior desavença na cara do povo. Não é culpa do povo. Que culpa tem essa gente? Trabalho dobrado,salário minguado. O pão custa caro, que carne, que nada! Os donos do mundo ignoram essas faces. E os pobres guerreiros na dura batalha. É um mar de angústia, vergonha, tristeza. Cadê meu Brasil? A sua riqueza? Favelas, cortiços, o meu povo chora. De fome e de dor, por aí afora.

Gutão - Como poeta você presenciou uma cena triste?

PP - A nega Benta, com a rodilha na cabeça, carregando lata dágua pro coroné se 'banhá'. O vento sopra, o canaviá 'dobra', mas não cai ladeira abaixo. É mais um dia que se vai, é só poeira que sai, da estrada que leva pro rio. Nega Benta está cansada. A sua labuta não tem fim.

Gutão - O que você pensa de todos esses caras metidos a 'espertos', sempre chegando nas situações para tirar proveito, até mesmo em roda de samba. O que você pensa destes verdadeiros 'piolhos'?

PP - Quanta conversa fiada, o Mané no meio de bambas soltou. Seu ápice é ' boi com abóbora'. Porque o restante deveria guardar. O seu semancol é ridículo demais, não usa, pois tem dó de gastar, não há criatura no mundo, que suporte o Mane discursar. Agora ele enlouqueceu, quer entrar na política, até se diz marxista, tudo pela igualdade social. Vive sempre pedindo um qualquer, quer ajuda na sua campanha, da ultima vez que tentou, ele quase apanha. Quanta conversa fiada...

Biulla - Quais os tipos mais curiosos que você encontrou pelas 'quebradas do mundaréu, como dizia o saudoso Plínio Marcos?

PP - Dona Filó fofoqueira, mulher de língua comprida. Vive em terreiro alheio, sempre armando intriga. Exterminadora de lares, correio da má notícia, é o terror da vizinhança, em tudo ela mete o bedelho?

Marcelo - Aqui em Osasco, notamos a presença brutal de 'trabalhadores' excluídos socialmente, uma verdadeira situação de exclusão social. O que você pensa desta situação?

PP - Ainda hoje de manhã, tive um pressentimento, senti a brisa mansa embalada pelo vento. A calmaria me dizia que algo iria acontecer. Pois ' Chico bala na agulha', acabara de voltar de uma grande reclusão. Que o tirou do lar de Rosa, foi então que o tal do Chico, percebeu o ocorrido, sua Rosa já tem outro, ela havia lhe traído. Sem moral, sem teto e sem mulher, com o peito em desalinho e somente o que restou de Rosa foram os espinhos. O Robin Hood do Morro, foi mais um 'herói' que tombou no morro. É o preço da fama, ele comandava, sua palavra era ordem, decreto, mandou reformar a escola, a sedinha e a creche, até um hospital, doava alimentos, enchia de presentes as crianças quando era Natal. Mas a notícia desceu ao asfalto e entrou no DP e o dr. Delegado conduziu a diligência. O morro foi invadir, a 'lei do asfalto' é clara. Robin Hood no morro não pode existir.

Biulla - Qual a situação mais esquisita que você encontrou no samba e quase perdeu o 'cavaquinho'?

PP - O pagode na casa de Dora, mulheres corriam pra dentro e os homens corriam pra fora. É que o nego Faísca, chegou pra arrumar escarcéu. Nem sequer foi convidado, ficou louco de dedéu. Sacou o seu parabelo e houve corre-corre, tanta confusão, que até o Joça na latrina saiu correndo com as calça na mão. Chico Roque Juazeiro, percebendo a armação, viu que o ferro do Faísca, não tinha munição. Deu-lhe um sopapo certeiro, que nego Faísca virou pelo avesso, ficou sem rumo, sem prumo e sem guia, perdeu o pivô e até o endereço. Foi um tremendo salseiro.

Marcelo - O poeta Vinícius de Moraes, afirmou em uma crônica que São Paulo seria o túmulo do samba, depois fez um samba lindo com o Adoniram Barbosa 'Bom dia, tristeza', que inclusive foi gravado pelo saudoso Roberto Ribeiro da Serrinha, uma gravação de arrepiar. Que você pensa sobre tudo isso?

PP - Quem pensa que São Paulo é só garoa, não reparou. Que essa terra é muito mais. Tem samba bom, tem sim, No Bexiga eu vi que a folia é verdadeira. E não já quem confunda, lá na Barrafunda. E vou pra vila Madalena, terreiro que dá gosto, lá muitos bambas encontrei. Em Osasco tem o Projeto Nosso Samba!

SelitoSD - Você já perdeu amor por causa do 'samba?

PP - Ela abandonou minha ala, alegando que eu não lhe dei carinho. Em meio à euforia da escola, na grande vitória eu me senti sozinho. Todos foram para a quadra, festejar a noite inteira e eu me senti, um mestre-sala sem porta bandeira.

SelitoSD - Todo poeta tem sempre uma mulher esperando?

PP - A nega pula de satisfação quando chego em casa cedo. Vem e faz um chamego, até me faz cafuné. E diz: "Nego não minta pra mim!" Porém tudo aquilo que faço, eu faço pensando em ti. Quando estou pensativo, sentindo a tua ausência, passo a mão no pinho e afasto toda a tristeza.

Wagner Alves - Você jura eterno amor?

PP - Jurar é fácil. Cumprir é que as vezes não dá. Nessa vida eu aprendi, que ' jurar fácil dá castigo'.

Gutão - Como poeta você presenciou uma cena triste?

PP - A nega Benta, com a rodilha na cabeça, carregando lata dágua pro coroné se 'banhá'. O vento sopra, o canaviá 'dobra', mas não cai ladeira abaixo. É mais um dia que se vai, é só poeira que sai, da estrada que leva pro rio. Nega Benta está cansada. A sua labuta não tem fim.

Marcelo - O poeta e compositor Paulo Leminski, tinha uma afirmação interessante sobre os tipos humildes dos subúrbios. Ele inclusive chamava isso de 'ataque à João Antonio' - São os acometidos desse mal crêem-se jogadores de sinuca, malandros da noite e velhos boêmios. Alguns tentam se parecer com Adoniram Barbosa. Quando alguém disser "literatura é um corpo-a-corpo com a vida", esteja certo: Ali alguém está sofrendo do Mal de João Antonio. Vivem normalmente de uma dieta de Gorki e Lima Barreto. O melhor modo de curá-los é convidá-los para uma partida de sinuca. O que você pensa disso, inclusive lembrando que o formidável escritor João Antonio, do bairro de Quitaúna em Osasco?

PP - Ainda hoje de manhã, tive um pressentimento, senti a brisa mansa embalada pelo vento. A calmaria me dizia que algo iria acontecer. Pois ' Chico bala na agulha', acabara de voltar de uma grande reclusão. Que o tirou do lar de Rosa, foi então que o tal do Chico, percebeu o ocorrido, sua Rosa já tem outro, ela havia lhe traído. Sem moral, sem teto e sem mulher, com o peito em desalinho e somente o que restou de Rosa foram os espinhos. O Robin Hood do Morro, foi mais um 'herói' que tombou no morro. É o preço da fama, ele comandava, sua palavra era ordem, decreto, mandou reformar a escola, a sedinha e a creche, até um hospital, doava alimentos, enchia de presentes as crianças quando era Natal. Mas a notícia desceu ao asfalto e entrou no DP e o dr. Delegado conduziu a diligência. O morro foi invadir, a 'lei do asfalto' é clara. Robin Hood no morro não pode existir.

Fabio - Quais os tipos mais curiosos que você encontrou pelas 'quebradas do mundaréu, como dizia o saudoso Plínio Marcos?

PP - Dona Filó fofoqueira, mulher de língua comprida. Vive em terreiro alheio, sempre armando intriga. Exterminadora de lares, correio da má notícia, é o terror da vizinhança, em tudo ela mete o bedelho!!

Gutão - Todo mundo do projeto sabe que você é um 'boca nervosa', um faminto desesperado, um famélico da terra, como essa particularidade sua aparece nos sambas?

PP - Todo final de semana, eu me dirijo pra lá. Na casa da Esmeraldina, da sua muqueca eu quero provar. É da terra de Caymi, tem a magia do tempero em suas mãos. E lá tem também tem partideiro, e o samba como é bom! Tem caldo de feijão, sarapatel, carne de bode na brasa é praxe cerveja gelada. Não tem hora pra acabar, e a folia vai romper, o amanhecer, todo mundo, já vai lá pernoitar, é por isso que eu vou levar você. Essa nega tem 'brevet' de fogão.

Wagner Alves - Como foi sua convivência com a região da Boca do Lixo, da gafieira 'Som de Cristal'?

PP - O trinta e cinco, vinha da praça do correio, trazendo a nega ao encontro do Benedito, corria o trecho da avenida são João, ele passava ali na Lapa, na estação. O endereço era a rua Rego Freitas. Era ali, naquela famosa gafieira, praticamente o 'habitat' de Benedito, conhecedor como pouco das danças de salão e pra facilitar a sua nega era a primeira passista da nossa grandiosa Camisa Verde e Branco.

Gutão - Como são seus parceiros no Projeto Nosso Samba?

PP - Na mesma folia do samba. Levamos uma vida de bamba, esperando a estrela da sorte, brilhar o seu lado mais forte. O meu era mais a caneta, os versos, as rimas, as poesias. Amigos de farra e de onda. Amigo em uma qualquer, varria a noite inteirinha, ao lado de uma bela mulher.

Caio Prado - É bom ser poeta?

PP - Humildemente eu vou. Eu, a caneta e o samba. Os versos e as rimas de bamba. Eu, a caneta e o samba. Esta entrevista também pode ser resumida pelo samba de Joel de Almeida: A primeira escola (Pereira Mattos & Joel de Almeida). A primeira escola de samba, surgiu no Estácio de Sá,/ eu digo isso e afirmo e posso provar/, porque existiam naquele tempo/, os professores do lugar Mano Nilton, Mano Rubem e Edgar e ainda outros que eu nem quero falar/. Depois surgiu a Favela, Mangueira e mais tarde a Portela/ e ainda faltam muitas outras, peço me desculpar por não falar,/ há não ser Vila Isabel, em homenagem ao saudoso Noel.
Rubão
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O que ler:
Lima Barreto - Clara dos Anjos, Ed. Brasiliense;
Maximo Gorki - A mãe, ed. Abril;
João Antonio - Abraçado a meu rancor, ed. Rocco

Perfis do Projeto Nosso Samba[1] - Gutão

Luiz Augusto Carvalho (Gutão). Foto: PNS/03

Existe no projeto nosso samba, um rapper que tem extrema agilidade de versejar, por mais estranho que pareça, culturalmente estou com Tinhorão[2], quando ele afirma que o ‘rap’ é a embolada dos brasileiros que perderam consciência de sua própria história cultural e popular.

Toda a agilidade mental, verbal e poética dos rappers está colada com a estória desconhecida da ‘embolada’, mas incorporada à estória de vida pessoal e familiar e que se vai passando na história familiar, sem que tenhamos consciência disso tudo.

É claro, que em nossas famílias negras, também temos um pé no samba-rock, mas músicas executadas nos bailes da periferia, durante os anos 70, enquanto se ouvia James Brown, Jorge Bem, Tim Maia e Cassiano. Esses formataram a proximidade entre a musica negra americana e a música brasileira, no período em que surgiram as bandas ‘Black Rio’ e os bailes promovidos pelas equipes que organizavam os bailes no São Paulo Chic e no Palmeiras.

Mas este corinthiano de pouco mais de vinte anos, Luiz Augusto Carvalho, Gutão, em bate-papo informal, reconheceu, denunciou e afirmou que o ‘rap’ trata da questão social e de classe e principalmente do racismo desta hipócrita sociedade brasileira. Para isso, ele lembrou a mensagem do seu querido Mano Brown, que coloca toda a revolta dele e do povo em suas letras, numa maneira de denunciar as formas de opressão social e racial do nosso país. Ele cita, “nossos motivos para lutar, ainda são os mesmos, o preconceito e o desprezo ainda são iguais. Nós somos negros, também temos nossos ideais. Racistas otários nos deixem em paz!” denunciar todo e qualquer tipo de racismo, deve fazer parte dos objetivos culturais que o Projeto Nosso Samba, como agrupamento de resistência na defesa da cultura popular.

O Gutão que tem apetite devorador, come de tudo, de jiló a pedra. Só bebe guaraná(diet) e tem além de seu ídolo Mano Brown, outros dois compositores mangueirenses entre os seus preferidos. Trata-se de Cartola e Nelson Cavaquinho. É curioso que a aspereza do Mano Brown permitiu que se conhecesse um lado mais emocionado e lírico do Gutão e para isso ele cita um outro mangueirense Carlos Cachaça (Não choro pra ninguém me ver sofrer de desgosto). Então fica provada sua origem mangueirense e sua disposição para estar sempre distribuindo sorrisos a todos que chegam no projeto, que o cumprimentam em respeito à sua dedicação ao Projeto Nosso Samba. Ele vinculou-se ao projeto, quando mudou-se para o Km18 e foi tomando um ‘refrigerante’ (estranho para um declarado boêmio), num botequim, conheceu um pessoal que fazia um samba que era raro de se ver em Osasco. Nessa roda estava o ‘mestre sala dos bares’ Vagner Alves. Aí ele que tem uma maneira particular de ‘pedir’ favores aos amigos falou desta maneira para o seu ‘mestre sala dos bares’ “Ô mano, amanhã eu vou trazer uma fita para você gravar só samba da antiga pra mim, falou? Se você não trouxer, eu arrebento com você, certo?” O mestre sala dos bares não pensou duas vezes, trouxe a fita bonitinha.

E desde esse dia, foram mais de quinze fitas gravadas pelo Vagninho, eles se fundiram em sambas e fitas e acabaram em um verdadeiro ‘é nois nas fitas!’. Ele pertence ao Projeto Nosso Samba, desde sua fundação, embora não se considere um dos seus idealizadores. Reconhece uma tristeza com o afastamento de alguns amigos, entre eles, é lógico o Caio Prado. Tem como sua maior alegria dentro do projeto: conhecer novas pessoas e conseqüentemente fazer amizades e conhecer o verdadeiro e bom samba brasileiro. Este é o Gutão, integrante histórico do Projeto Nosso Samba. Um partideiro preocupado com nossas dores sociais. Para ele deixamos este samba histórico de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida “Pra que discutir com madame : Madame diz que a vida não melhora, que a raça piora, por causa do samba. Madame diz que o samba é mistura de raça, mistura de cor. Madame diz que o samba devia acabar’ Se depender do Gutão o samba e o Projeto Nosso Samba nunca irão acabar.

Rubão
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[1] A idéia destes perfis é de permitir que nossas visitas possam conhecer um pouco mais da história dos integrantes do Projeto Nosso Samba.
[2] José Ramos Tinhorão, historiador e crítico musical da musica popular brasileira, publicou entre outras obras ‘Os sons que vem da rua’ e ‘Pequena história da Musica Popular Brasileira.

O Surdo

Foram batidas rigorosamente simétricas. Contava-se, um, dois, três, quatro, compassado com a contagem dos segundos, e aí, mais uma vez ouvia-se a batida. Um lamento cruel, silencioso, doloroso, provocando a fantástica imagem da dor. Levando-nos, imortais que somos, nós que fugimos do inevitável, ao silêncio fúnebre, ao cheiro de cravos, rosas, incensos e velas.

Naquele dia, o dia mais perverso do ano, o surdo, o regente da euforia dos grandes espetáculos, regia a tristeza. O coral composto por quinhentas vozes afinadas, quinhentas vozes de sambistas, entoava:

"...O samba não levanta mais poeira/ O asfalto hoje cobriu nosso chão/ Lembranças eu tenho da saracura (...) Bixiga hoje é só arranha-céu/ E não se vê mais a luz da lua..."

A música que outrora fizera vibrar as passarelas, agora era cantada lentamente como a batida do surdo. Bem-te-vis, homens, pombos, rolinhas e mulheres, tentavam esconder as lágrimas. Naquele momento o bandido mais desumano, caso lá se encontrasse, certamente teria sua alma persuadida.

Ao final da despedida, um forte silêncio se fez e as pessoas que se comprimiam na sala, saíram trazendo à frente, o surdo e sua dor. Em seguida, surgiram dois carros, como se fossem macas, compridos e altos, e sobre eles as coroas de flores foram colocadas. Era início do ano. Tempo em que o surdo começa a se aquecer. Tempo em que o grande povo trabalha a sua fantasia. E ali estava ele, melancólico, de luto, sem palavras. Inesperadamente, do meio do povo, como mágica, inúmeros estandartes brilhantes foram erguidos e de lá surgiram as mais formosas mulheres. Por mais que demostrassem tristeza e cansaço, seus rostos mantinham-se fielmente belos. Era à tarde e a alameda já se preparava para receber os últimos visitantes do dia. O carro das flores encabeçava o cortejo, vindo a seguir a ala das porta-bandeiras. Recendia na tarde o aroma das flores e o perfume das mulheres tristes. Impiedoso, o surdo permanecia no seu silêncio, carregando na sua dor, um ritmista do realismo mágico. Ali tudo era realismo.

Despedia-se de um companheiro. Um paulista-bexiguense. Um notável sambista. Um ilustre compositor de música brasileira. Geraldo Filme de Souza. O Geraldo Filme, da Escola de Samba Vai-Vai. Não houve discursos. Apenas aplausos e a lembrança da missa de sétimo dia. E, já distante, a dor do surdo.
Celso Alencar*
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* Poeta paraense radicado em São Paulo, autor de "O primeiro Inferno e Outros Poemas", "O Pastor", "Os Reis de Abaeté", "Arco Vermelho", "Salve, Salve" e outros.É membro do Conselho Municipal de Cultura e diretor da União Brasileira de Escritores

Para Seu Carlão do Peruche

Era agosto. Da Barra Funda, a gente pegava o trem e ia até a estaçãozinha de Barueri. Dali, cada qual como podia, faltava chão pela estrada dos Romeiros: uns de cavalo, outros de carro-de-boi, os mais humildes, a pé mesmo. Era época santa, época do Santo, Bom Jesus. Pirapora. O que se havia prometido, devia de ser cumprido, o que devia ser conseguido, havia de ser prometido. O Santo faz milagres. O Santo cura.

Mamãe, católica, me pegava num braço, rumo à missa. Papai, fagueiro, pegava no outro, ao barracão. O coração generoso de mamãe não vencia o braço forte de papai. Só depois de velho conheci a Igreja. Nasceu, jogou, caiu sentado é Padre, caiu de pé é Sambista. Assim as linhas tortas escrevem o nosso destino. E é preciso cair de pé para sobreviver. Tiririca faca de ponta, capoeira tem que pegá.

Lá dentro, gente dormia, gente cozinhava, a raça jongava. Mulheres de um lado, homens do outro. O chefe do samba punha a mão no bumbo, sinal de silêncio, atenção, o ponto é lançado: eu vi jogo de mão, eu vi jogo de pé, eu vi bola virá, eu não vi como é. Um mistério, quem não sabe não desata, deixa cantá. E o mistério tomava conta. Zé Soldado, Pai João, Zé Mundão, Isidoro, desafios de bamba, criança espreitava, a noite corria na areia. Enquanto nós bebe pinga essa samba não arreia.

Só assim pra aprender as mumunhas do samba e da arte da sobrevivência. Dos bailes nos porões do Bixiga, dançando com a cabeça curvada, até a minha primeira escola, a Lavapés, encarando os bambas mais sinistros para fazer valer a palavra da Nossa Madrinha Eunice, sapateei, perneei, saracoteei, naquele tempo as coisas eram na mão. Assim se faz um bamba, cidadão-samba. Da Barrela pra tirar as manchas da roupa, do domínio público pra tirar os hômi da área, do samba pra tirar a lua pro escuro do beco, da lata de graxa pra tirar o samba que a lua ilumina, de todos os esforços do mundo pra tirar a escola da quadra pra avenida. Alegrias ladinas, áfricas memórias.

Tempos idos, saudade e devoção me chamam à Pirapora. Não há mais barracão, mas o samba ainda pulsa nos requebros lúcidos de uma senhora louca, enquanto houverem moinhos, haverão quixotes. Meu olhar se perde, os olhos marejam. De repente um aperto no braço. É uma senhora: menino, tu não é filho de Zeca e Maria ? Desde então, percebi que o tempo não passa.
Marcelo A. Benedito

Seu Jair do Cavaquinho homenageado no PNS

Seu Jair do Cavaquinho homenageado no PNS!

É isso aí, gente boa gente! No Domingo dia 30 de março, ao que tudo indica, o Projeto Nosso Samba terá a honra de receber em seu terreiro, nada mais, nada menos que o grande mestre Seu Jair do Cavaquinho.

Para quem não sabe, trata-se de uma das mais importantes personagens da história do samba. Não é demais lembra que Seu Jair, integrou os primeiros e mais importantes conjuntos que vieram a forjar o samba como a essência da música brasileira. Participou no Rosa de Ouro, no A Voz do Morro e também no Os Cinco Crioulos.

Dividiu palco com bambas de alto quilate como: Paulinho da Viola, Zé Ketti, Nelson Sargento, Elton Medeiros e Mauro Duarte e foi considerado por Jacob do Bandolim o melhor cavaquinista de samba.

Atualmente, Seu Jair é integrante da Velha Guarda da Portela e nos dias 28 e 29 de março, sexta e sábado próximos, as 22h00, se apresentará, acompanhado pela excelente rapaziada do conjunto Samba Raro, no Világgio Café, sitiado no Bixiga, na Praça Dom Orione, 298 entre as ruas 13 de maio e Rui Barbosa, fone: (11) 251-3730, couvert R$ 15,00.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2003

História

José A. Goulart

Fragmento de documento, onde a irmandade do Rosário pede permissão para fazer uma procissão no Império.
“O Juiz e Irmãos de Nossa Senhora do Rosário”, dizia Caetano Pinto a Antônio Carlos, pediram a V.Mcê., para saírem ao amanhecer de 17 para 18 do corrente com sua bandeira da mesma Senhora pelas ruas desta cidade, acompanhada por eles, e pelas irmãs da dita irmandade, com toque de instrumentos, zabumbas, clarinetes, jogos de ar: e V.Mcê. deferiu-lhes como eles pediram.”

“O exemplo da Capitania da Bahia, cujo incêndio pela sua proximidade pode facilmente atear-se em Pernambuco; o desassossego que tivemos aqui o ano passado; e as suspeitas ainda não desvanecidas de um levante premeditado em Alagoas, exigem grande circunspeção sobre o ajuntamento de escravos, principalmente a noite. A Ordenação do Livro 5º,T.70 § 1º parece-me que nas circunstâncias atuais deve ter uma prudente aplicação no Recife e Olinda, e fogos de artifício sabe V.Mcê que são proibidos por diversas leis. “Recomendo pois a V.Mcê e positivamente lhe ordeno, que tenha a maior cautela em conceder estas licenças; antes, se pudesse conseguir que os habitantes de Olinda não misturassem nas suas festas coisas profanas com divinas, faria V.Mcê um serviço muito agradável a Deus, e a Sua Alteza, Nosso Religiosíssimo Soberano. “Deus guarde a V.Mcê. Recife, 16 de dezembro de 1815. a) Caetano Pinto de Miranda Montenegro e Sr. Ouvidor-Geral Antônio Carlos Ribeiro de Andrada.

Fonte: Da Palmatória ao Patíbulo, José Alípio Goulart, Temas Brasileiros, Castigos de Escravos no Brasil, ed. Conquista

O último tocador de tambu

Plínio Marcos
Nas quebradas do mundaréu, bem onde o vento encosta o lixo e as pragas botam os ovos, mexe e vira havia festa de tambu. Tambu é uma dança de umbigada. Homens de um lado, mulheres do outro, o cantador improvisa versos no meio da roda, canta primeiro pras mulheres, depois para os homens, até todos poderem cantar juntos; então o cantador se afasta e, batendo palmas no ritmo, homens e mulheres vão se aproximando até darem umbigada. Três instrumentos entram no tambu – pau-oco ou sete léguas, um pau de sete metros com um couro esticado na ponta capaz de ecoar na mata por sete léguas; quingengê, uma espécie de atabaque pequeno; e chocalho.

O Almofadão, crioulo cheio de truques, gostava de se apresentar bem trajado, com roupa branca, de um branco de anúncio de televisão, daí o apelido – era um grande puxador de tambu. Mandava ver, dava um recado sentido. E todos o respeitavam. Não havia batuqueiro que dispensasse as festas onde o Almofadão cantava e batia tambu. Por essas e outras, o coroa reinava.

E seu filho, o Almofadinha, desde pequeno dava as fuças nesse pagode, dizendo co pé com príncipe que era. Por ser pivete, abafava: O pai não descuidava, levava o moleque num cortado.

Antes de saírem, o velho Almofadão examinava o filho de cima a baixo, pra ver se estava tudo como mandava o figurino. Quando retornavam das festanças, conferia mais uma vez seu menino se ele não estivesse coberto de poeira, tal qual um tatu, levava cascudo, pois era sinal de que não tinha se espalhado como devia um bom batuqueiro.

Assim, o Almofadinha foi crescendo e ganhando nome no seu pedaço O velho Almofadão se sentia tranqüilo para morrer. Sabia que, quando fosse falar com Deus, o tambu não iria pro beleléu. Seu filho amado estaria firme para manter o axé da família. Remando o barco mesmo contra a maré. E salvaria o tambu apesar da onda de música estrangeira que já naquele tempo era só o que se escutava, nos veículos de comunicação. Foi por essa fé que, no dia em que o coração rateou, o velho Almofadão nem se afobou. Deitou, fechou os olhos na proteção dos orixás, se apagou.

Pro Almofadinha, perder o pai – antes de mais nada um companheirão de batuque. – foi um golpe de entortar o patuá. Ficou jururu. Mas deu descanso de alça pro Almofadão com todas as honras de mestre batuqueiro. Fez o couro do cabrito gemer; chorou no quingenguê até botarem terra em cima da carcaça do velho Almofadão. E, diante da cova rasa que coube ao Almofadão, o Almofadinha jurou, pela luz que o iluminava, que seria um tocador de tambu até seu último suspiro. Se tivesse filhos passaria a eles os macetes do negócio.

Porém ( sempre tem um porém ), logo a mãe do Almofadinha esticou as canelas, com saudades do marido. Ao ficar sozinho, o Almofadinha, desacorçoado naquele lugar onde tudo lembrava seus mortos queridos, juntou seus trapinhos, seu quingenguê e mais uns badulaques e se arrancou. Sai sem rumo, à procura de um mocó pra começar nova vida. Nessas andanças, o Almofadinha teve que bater perna à toa pelos caminhos esquisitos do roçado do bom Deus.

Pra se escorar, resolveu bater seu quingenguê nos botequins, esperando que algum bobalhão, entusiasmado com seu som, lhe adiantasse alguma graninha. Qual o que..

Foi tocar e causar espanto: ninguém entendeu. As orelhas viciadas em ritmos estrangeiros estranharam aquela batida. De inicio, pensaram que o Almofadinha era africano, só quando abriu o bico, viram que era brasileiro.

E aí gozaram o desgraçado as baldas. Encabulado o Almofadinha puxou uns versos pra provocar as moças, versos de sucesso garantido no seu antigo pedaço:

“Campinas, Tietê, Pederneiras/ Aqui em São Paulo não tem/ Moça batuqueira”

Coitado! Tomou a maior vaia da paróquia e, depois da vaia, esculachos mil. Invocado com o passa-fora, o Almofadinha meteu o falho dentro e se retirou. Foi matutar no seu canto.

Por acaso, escutou uma música tocando no rádio. Estrangeira, naturalmente. Mas o Almofadinha não se mancou, era música e era isso o que importava. Dono de um ouvido privilegiado, prestou atenção e morou no ritmo. Achou uma sopa. Bateu no seu quingenguê e não teve chibu. Na sua bobeira, até achou legal. Continuou tocando e não demorou para se sentir à vontade: Demorou menos ainda pra aparecer um freguês todo animado com a batida do Almofadinha, anunciando com banca de entendido: “poxa, bicho” Tu é o máximo nessa tumbadoura. Chega mais”.

O Almofadinha se aproximou, entrou de sola com o som que pegou de orelhada. Só recebeu elogio. “bárbaro”, ”supermoderno”, ”demais”, “ o bicho curte legal”, “é bidu mesmo”, animava a galera.

E, enganbelado o Almofadinha entrou de gaiato na pala da moçada. Esqueceu rápido sua origem, seu velho pai, o Almofadão companheiro e amigo. Aprendeu as milongas da nova curriola, os ritmos das rádios. Foi convidado para fazer parte de um conjunto de garotões cabeludos. Aceitou. E passou a chiar coisas de lascar, com a boca mole de mascar chicletes:

- Sem essa, bicho! Tambu já era.

Deve fazer o velho Almofadão se remexer na cova de tanto desgosto.

O Samba bate outra vez

A família PNS (foto: PNS/02)


...................................................Ponte Preta, janeiro 2.002

Aconteceu com grande entusiasmo a primeira roda do Projeto Nosso Samba no domingo 26 de janeiro. A roda que começou um pouco atrasada, contou com a participação da comunidade e recebeu convidados que atuaram de maneira muito particular na história do samba paulista: Hélio Bagunça (Camisa Verde ) e o Tião Preto(Vila Virou).

Os integrantes do PNS estavam com uma afinação sem igual, levando sambas belíssimos e tradicionalmente cantados nas rodas do projeto.

Uma das motivações particulares para alguém se dispor a visitar o PNS é conhecer a dedicação dos integrantes pela execução dos sambas da velha e nova guarda junto com a oportunidade de desfrutar o convívio poético com os compositores do projeto. O entusiasmo do grupo, contagiou a todos.

As rodas sempre tem um direcionamento musical, que foi alterado pela presença do surpreendente sambista Hélio Bagunça. Ele que cantou sambas das velhas guardas da escola Camisa Verde e Portela e do compositor portelense Paulo César Pinheiro, em três vezes se repetiu exaltando sua escola de coração, o partido de paixão declarada a Escola de Samba Camisa Verde e Branco. Todo indivíduo que viveu intensamente a vida, principalmente no samba, tem muitas estórias pra contar. No caso do Sr. Hélio é muito envolvente ouvir o relato de suas experiências e atitudes nem sempre compreendidas e até mesmo questionáveis ( ele tem uma fala que não aceita discordância), exibiu ginga ao dançar, exibiu poesia ao cantar, exibiu dignidade ao narrar passagens de sua estória no mundo do samba.

O também portelense Tião Preto, mandou belíssimos sambas do Paulinho da Viola e da sua querida Portela, antes que deixasse a roda, mandou com todo seu encantamento o magnífico samba-enredo sobre a guerra de Canudos da escola de samba Em Cima da Hora (Marcados pela própria natureza) Este samba junto com o imperiano, Heróis da Liberdade de Silas de Oliveira, são composições com tamanha inspiração poética e compromisso histórico que deveriam ser cantados em toda roda de samba, mostrando a resistência dos oprimidos da nossa história, deveriam ser ouvidos em pé com uma marcação de arrepiado silêncio.

O Projeto Nosso Samba , começará o ano arrasando, participando do programa carnavalesco do SESC Ipiranga, no programa ‘Sambas de Bumbo e Bambas do Samba’, onde pela primeira vez estarão atuando conjuntamente os novos terreiros de samba paulista junto com o ignorado ‘samba rural paulista’. Aqui cabe um esclarecimento cultural.. Todos nós tivemos uma formação, através da indústria cultural e não das vivências em terreiros ou das quadras das escolas de samba, perdemos uma qualidade essencial da nossa cultura popular, que é estudar, compreender, e valorizar a história cultural dos oprimidos na cidade de São Paulo. Estes oprimidos escravos e imigrantes forjaram involuntariamente nas periferias de São Paulo, uma prática musical e religiosa (as romarias) desenvolvidas em ambientes deliberadamente isolados, econômica e urbanisticamente. Só para exemplificar, todas as manifestações musicais populares eram vigiadas pela polícia e seus integrantes fotografados e devidamente fichados. Não devemos esquecer que, carregar violão em punho, foi sinônimo de vadiagem e portanto de prisão

A roda foi encerrada com uma intervenção histórica do Sr. Hélio, que expôs as relações dos diferentes grupos de tiririca sejam da Barra Funda, da Praça da Sé ou do Largo da Banana. O que importa é que todos eram sambistas em sua essência, com uma atuação assinalada pela perseguição policial a qualquer manifestação popular. Entre os limites da memória, recuperou-se a estória da extinta escola Unidos dos Campos Elíseos, de uma época onde para se atravessar a cidade e, após o trabalho fazer uma roda de samba na esquina, se levava o tamborim embrulhado em jornal, junto com a marmita, escondido da polícia. Toda vez que um surdo bate novamente o toque de reunir, sopramos a brasa da memória de todos aqueles que anonimamente deram vida ao samba, possibilitando de alguma maneira, expressar com força, a poesia dos oprimidos.
.......................................................Rubens Grego (Rubão)

Mestre Toniquinho Batuqueiro*

A vida de Toniquinho Batuqueiro, nascido a 25 de fevereiro de 1929 em Pau Queimado - Piracicaba, compõe um verdadeiro quadro da história do samba paulistano.

Instalando-se a princípio no Parque Peruche, na capital, local de importante fixação de negros vindos das chamadas zonas batuqueiras do oeste paulista (onde ocorre o "Batuque de umbigada" ou "Tambu" pelos seus dançadores, e também o "Samba Rural Paulista" assim denominado por Mário de Andrade) circulou por todos os pontos de samba e tiririca (espécie de capoeira de sotaque paulista) na cidade, como a Vila Maria, a Vila Santa Maria, Casa Verde, Largo da Banana, Largo das Perdizes, área sul da Sé.

Ainda no tempo do bonde, veio trabalhar como engraxate na Praça da Sé onde conviveu com bambas como Geraldo Filme, Synval e Germano Mathias.

O ponto, naquele tempo, era bom para engraxates, como dizia Toniquinho, pois todos os bondes vinham para a Praça da Sé trazendo o povo com o pé todo cheio de lama, já que eram poucas as ruas asfaltadas naquele São Paulo antigo.

Todo final de expediente terminava em batucada na lata de graxa e em uma ou outra roda de tiririca, sempre com muita atenção contra a rigorosa perseguição policial. Após uma estada no Rio, onde morou na Lapa trabalhando como entregador de pão, retorna à São Paulo, onde participa da formação da Unidos do Peruche e da Unidos da Vila Maria. Nesse período instala-se em Osasco, na grande São Paulo, na qual desenvolveu alguns projetos como a desativada Praça do Samba, espaço para o cultivo de velhos e apresentação de novos talentos.

A vivência musical de Toniquinho, mesclando informações do Tambu vivido na infância com influências das marchinhas do carnaval carioca e paulista, todas remexidas no caudilho musical negro que eram as Festas de Bom Jesus do Pirapora, fizeram de Toniquinho um dos maiores ritmistas do país, talento reconhecido por nomes como Mestre Fuleiro do Império Serrano, e também por sua profunda vivência como juri de bateria nos diversos concursos carnavalescos pelo país.

Sua convivência com Plínio Marcos também se destaca, personalidade que ainda lhe inspira profunda devoção. Nos anos de chumbo da ditadura, Toniquinho, Geraldo e Zeca da Casa Verde gravam o antológico "Plínio Marcos em Prosa e Samba", hoje objeto de colecionadores, onde contam e cantam suas histórias. Esse mesmo grupo participa de várias peças teatrais criadas pelo Plínio, compondo ou interpretando a si mesmos, como na peça Barrela, que mostra o cotidiano de uma típica cela de prisão.
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(*)Toniquinho: Embaixador do Samba. Foto: PNS

Marcelo A. Benedito

O Samba está de luto

À saudosa Dona Zica, saudações sambísticas do Projeto Nosso Samba de Osasco.

A família Projeto Nosso Samba se solidariza com toda a comunidade do samba, especialmente a mangueirense e chora a morte da já mui saudosa Dona Zica, legitimamente reverenciada como a Primeira Dama da Estação Primeira de Mangueira.

A passagem desta tão brilhante e relevante figura da e na história da nossa cultura brasileira e popular, em muito nos enobreceu e enriqueceu, e decerto o legado por ela deixado e que tão orgulhosamente herdamos nos será de grande valia para que continuemos firme nessa incessante luta em defesa do que nos é caro demais, a saber: o nosso velho e bom samba.