domingo, 23 de outubro de 2005

CAROLINA MARIA DE JESUS

“Vou colocar vocês em meu livro!” – disse uma senhora negra, favelada, ao ver uns bêbados destruindo o parquinho das crianças na favela Canindé. Essa era a sua arma: o poder da escrita. Carolina Maria de Jesus, a catadora de papel que atingiu o sucesso meteórico com o livro Quarto de Despejo, registrou o sofrimento e a luta por dignidade de uma mulher negra, mãe solteira e favelada. “Parece que quando eu nasci o destino me marcou para passar fome”. Era a chamada “amarela”, pois assim o mundo lhe parecia no agudo desse sofrimento.

O sucesso do Quarto de Despejo ocultou o restante da sua obra, de enorme valor literário, composta por poemas, crônicas, contos e até peças de teatro. Deixou ainda dois discos e especiais na TV Alemã e na Rede Globo. Sucesso, a bem da verdade, totalmente superficial pois no dia mesmo do lançamento do Quarto de Despejo ela ainda saiu para catar papel.

Passado a euforia do desenvolvimentismo dos anos JK, Carolina Maria de Jesus retornou à sua vida de favelada contestando uma sociedade hipócrita que pregava a igualdade de oportunidades para todos. Nem os movimentos negros e feministas da época fizeram dela um emblema das suas lutas. Julgavam-na “inadequada” para tal, ou noutras palavras, expunha demais as contradições daquela sociedade. O Projeto Nosso Samba, herdeiro legítimo das lutas sociais do povo negro, quer honrar a memória dessa guerreira. Salve Carolina Maria de Jesus.

A VOLTA

(Candeia)

Quando eu pego a viola
Me sesqueço da vida
Mas não chora, não chora
É hora da partida
Trago o samba no sangue
E não posso ficar
Meu amor não se zangue
Que amanhã eu vou voltar

Lhe darei uma flor, uma canção
Pois o samba é forma de oração
Quando o sol clarear
Eu não tardo a chegar
Pois o samba me leva e me traz
Aos teus braços tão cheios
De amor e de paz

DIA DE GRAÇA

(Candeia)

Hoje é manhã de carnaval (ao esplendor)
As escolas vão desfilar (garbosamente)
Aquela gente de cor
com a imponência de um rei
vai pisar na passarela (salve a Portela)
Vamos esquecer os desenganos (que passamos)
Viver alegria que sonhamos (durante o ano)
Damos o nosso coração alegria e amor
a todos sem distinção de cor

Mas depois da ilusão, coitado
Negro volta ao humilde barracão


Negro acorda é hora de acordar
Não negue a raça
Torne toda manhã dia de graça
Negro não humlhe
nem se humilhe a ninguém
Todas as raças já foram escravas tambem
deixa de ser rei só na folia
e faça da sua Maria uma rainha todos os dias
E cante o samba na universidade
E verás que seu filho será príncipe de verdade
Aí então jamais tu voltarás ao barracão

PINTURA SEM ARTE

(Candeia)

ME SINTO IGUAL UMA FOLHA CAÍDA
SOU O ADEUS DE QUEM PARTE
PRA QUEM A VIDA
É PINTURA SEM ARTE
A FLOR ESPERANÇA SE ACABOU
O AMOR O VENTO LEVOU, OUTRA FLOR
NASCEU E A SAUDADE ME INVADE
TIRANDO A LIBERDADE
MEU PEITO ARDE IGUAL VERÃO

MAS SE É PRA CHORAR
CHORO CANTANDO
PRA NINGUÉM ME VER SOFRENDO
E DIZER QUE ESTOU PAGANDO

Não, não basta ter inspiração
Não basta fazer uma linda canção
Pra cantar samba se precisa muito mais
SAMBA É LAMENTO, É SOFRIMENTO
É FUGA DOS MEUS AIS
POR ISSO EU AGRADEÇO
A SAUDADE EM MEU PEITO
QUE VEM ACALENTANDO
O MEU SONHO DESFEITO

JARDIM DO PASSADO
FLORES MORTAS PELO CHÃO
PÉTALAS, SEMENTES DE PAIXÃO

VIVER

(Candeia)

LA LAIA LAIA, LA LAIA LAIALA
EU DIGO E ATÉ POSSO AFIRMAR
VIVE MELHOR QUEM SAMBA

VOU PELA RUA CANTANDO
E O CLARÃO DA LUA VEM ORNAMENTAR
SIM VOU LEVANDO ALEGRIA
PRA DONA TRISTEZA ALEGRE FICAR
ABRE A JANELA DO PEITO
E DEIXE O MEU SAMBA PASSAR
SAMBA NÃO TEM PRECONCEITO
E JÁ VAI TE LIBERTAR

A LIBERDADE DOS PRANTOS
E DOS DESENCANTOS QUE A VIDA NOS DEU
A LIBERDADE QUE ENCANTA
É AMOR E ESPERANÇA
PRA QUEM JÁ SOFREU
CADA QUAL QUE OLHAR PARA TRÁS
VERÁ QUE SEMPRE HÁ UMA RAZÃO DE VIVER
QUEM GUERREIA PELA PAZ
A VERDADEIRA PAZ NUNCA HÁ DE TER

CANTEM TODOS COMO EU FAÇO
PERDOEM OS FRACASSOS
A VIDA É TÃO CURTA
ENQUANTO SE LUTA
SE SAMBA TAMBÉM
NOITE FRIA ENLUARADA
FIM DE MADRUGADA
FELIZ VOU CANTANDO
CANTANDO A ALEGRIA QUE O SAMBA CONTÉM

SAMBA DA ANTIGA

(Candeia)

Vem pra roda menina
Mexer com as cadeiras, vem sambar
Vem mexer com as cadeiras, vem sambar
Vem mexer com as cadeiras, vem sambar
Este samba é da antiga
É de gente amiga, vem sambar
Vem mexer com as cadeiras, vem sambar
Vem mexer com as cadeiras, vem sambar

A idade não importa
A cor da sua pele não me interessa
Se tem perna torta
Se tem perna certa
Basta saber se tem samba na veia

O samba veio de longe
Hoje está na cidade
Hoje está nas aldeias
Nasceu no passado
Vive no presente
Quem samba uma vez
Samba eternamente

Antônio Candeia Filho, o Mestre Candeia: 70 anos

Menino de Oswaldo Cruz, filho de portelense tradicional, jovem compositor campeão de nosso carnaval, um dos maiores vencedores de sambas da Portela, maior partideiro de todos os tempos, fiel defensor da nossa cultura popular...

Candeia. Fogo intenso do samba, chama imortal da arte, luz que inspirou todos os apaixonados pela verdadeira cultura brasileira, guerreiro que mesmo sem andar difundiu sua mensagem em forma de canção...

Definí-lo é uma árdua tarefa. Foram apenas 43 anos, mas 43 anos vividos intensamente, como se Candeia pressentisse que seu tempo seria curto.

Quando criança, ele lamentava que suas festas de aniversário não tinham crianças. Seu pai, Antônio Candeia, aproveitava o 17 de agosto para chamar os amigos adultos para um longo pagode temperado a feijão e cachaça.

De tanto ouvir, tornou-se precocemente um mestre do samba. Aos 17 anos, venceu a disputa de sambas-enredos na Portela para o Carnaval de 1953. Ao lado do parceiro Waldir, (59), ainda venceria outras cinco vezes na escola.

Quando mais novo, como não tinha habilidade para jogar bola, foi ser centroavante rompedor. Fazia gol de ombro, do jeito que desse. Jovem forte, tornou-se um policial severo, violento mesmo. Dava duras em prostitutas e supostos malandros – certa vez abordou o ainda desconhecido Paulinho da Viola, em um salão de sinuca – e prendia sem parcimônia. Candeia queria ser bom em tudo. Se era policial, tinha que prender.

A rima de valentia com boemia lhe custou caro. Na manhã de 13 de dezembro de 1965, ao voltar de uma noitada, Candeia se envolveu em uma briga de trânsito no centro do Rio. Esvaziou a tiros os pneus do caminhão que se chocara com seu carro. Em resposta, o dono do caminhão atirou cinco vezes. Uma bala pegou a medula e o deixou paraplégico. Candeia, assim, estava condenado a viver pelo resto da vida “sentado em trono de rei”. A cadeira de rodas torna-se sua amiga inseparável. No início foi difícil, mas Candeia conseguiu recuperar a alegria pela vida.

Sua música cresce em qualidade, suas canções despontam definitivamente para a glória, retratando sua própria situação, apesar da dor. Era a vida que continuava.

A partir do final dos anos 60, Candeia assumiu uma atitude praticamente inversa à do policial repressor, transformando o seu sofrimento em matéria-prima de uma reviravolta típica dos heróis trágicos.

Tornou-se um líder político, mas não partidário, o que era quase impossível naqueles anos da ditadura. Foi um porta-voz da cultura negra, dos sambistas alijados das escolas de samba cada vez mais comerciais e de um nacionalismo que incomodava, numa época em que só era bom para o Brasil o que fosse bom para os EUA.

Inconformado com os rumos que as escolas de samba estavam tomando, Candeia funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra, Escola de Samba Quilombo, no dia de dezembro de 1975. A função da Escola de Samba Quilombo seria preservar o que seu fundador considerava ser a verdadeira essência das escolas de samba, ou seja, um movimento de resistência, como ele explicava. O Quilombo não competiria, não traria a preocupação com a parte estética, cada vez mais acentuada nas escolas já na década de 70. Além da resistência cultural, o Grêmio Recreativo de Arte Negra, Escola de Samba Quilombo também trouxe para a comunidade de Coelho Neto, onde se localizava, uma série de iniciativas sociais, propagando os valores culturais da população negra.

A luta pela preservação da verdadeira cultura brasileira, e da valorização do negro em nossa sociedade, tomaria os últimos dias da vida de Candeia. Suas músicas expressam constantemente essa preocupação.

A influência estrangeira nos jovens das comunidades carentes estaria afastando-os dos valores de seus antepassados, tornando mais difícil a consciência de grupo, fundamental para a superação da situação subalterna à qual os negros estavam submetidos. Candeia percebia isso, e usava a música para transmitir suas mensagens.

No dia 16 de novembro de 1978, Candeia falecia no hospital Cardoso Fonte, em Jacarepaguá, vítima de parada cardíaca, conseqüência de infecção generalizada. Morria o sambista, nascia o mito. Depois de sua morte, soubemos que a ditadura o vigiava, porque ele tinha uma postura rebelde e estava mobilizando estivadores e outros grupos esquecidos.

Mais de 25 anos após sua morte, Candeia continua sendo lembrado como o maior partideiro de todos os tempos. Suas músicas são sempre citadas como exemplo. Aqueles que viveram seu tempo lembram com saudades; os mais jovens aprendem suas canções com respeito e admiração.

Candeia é a eterna “luz da inspiração”, inspiração para os poetas e lideranças negras que seguiram seu ideal. Sua mensagem permanece viva, suas preocupações hoje são mais atuais do que nunca, e assim o mestre se perpetua. Candeia foi assim, é assim, será assim. Simplesmente Candeia!

terça-feira, 18 de outubro de 2005

SOCIALISMO E CULTURA*

Antonio Gramsci, 1916

Saltou-nos à vista há algum tempo um artigo no qual Enrico Leone, da forma complicada e nebulosa que lhe é tão freqüente e própria, repetia alguns lugares comuns acerca da cultura e o intelectualismo em relação ao proletariado, opondo-lhe a prática e o fato histórico, com os quais a classe está se preparando o porvir com as suas próprias mãos. Não nos parece inútil voltarmo-nos sobre esse tema já outras vezes tratado no Grido e que já se beneficiou de um estudo mais rigorosamente doutrinal, especialmente na vanguarda dos jovens, na ocasião da polêmica entre Bordiga, de Napoles, e nosso Tasca.

Vamos recordar dois textos: um de um romântico alemão, Novalis (que viveu de 1772 a 1801), o qual disse: “O problema supremo da cultura consiste em fazer-se dona do próprio eu transcendental, em ser ao mesmo tempo o eu do eu próprio. Por isso surpreende pouco a falta de percepção e intelecção dos demais. Sem um perfeito conhecimento de nós mesmos, não poderemos conhecer verdadeiramente aos demais”.

O outro, que resumiremos, é de C. B. Vico. Vico (no Primeiro corolário acerca da fala por caracteres poéticos das primeiras nações, na Ciência Nova) oferece uma interpretação política do famoso dito de Solón que logo adotou Sócrates enquanto filosofia, “Conheça-te a ti mesmo”, e sustenta que Solón quis com ela exortar aos plebeus, que se acreditavam de origem animal e pensavam que os nobres eram de origem divina a que refletissem sobre si mesmos para reconhecerem-se como iguais, em sua natureza humana, aos nobres, e, por tanto, para que pretendessem ser igualados a eles em direito civil, e nessa consciência da igualdade humana de nobres e plebeus põe logo a base e a razão histórica da origem das repúblicas democráticas da Antigüidade.

Não reunimos estes dois textos por capricho. Nos parece que neles se indicam, ainda que não se expressem e nem de longe definam, os limites e os princípios nos quais devem fundar-se uma justa compreensão do conceito de cultura, também a respeito do socialismo.

Há que se perder o costume e deixar de conceber a cultura como saber enciclopédico no qual o homem não se contempla mais que sob a forma de um recipiente a ser freqüentemente preenchido e sustentado com dados empíricos, com fatos brutos e desconexos que ele terá que, de pronto, classificar no cérebro como em colunas de um dicionário para poder responder, na ocasião oportuna, aos estímulos vários do mundo externo. Essa forma de cultura é verdadeiramente daninha, especialmente para o proletariado. Só serve para produzir desorientados, gente que se crê superior ao resto da humanidade porque tem amontoada na memória certa quantidade de dados e datas colhidos em variadas ocasiões para levantar uma barreira entre si mesmo e os demais. Só serve para produzir este intelectualismo cansado e incolor tão justa e cruelmente fustigado por Romain Kolland e que tem dado luz a um bando inteiro de fantasiosos e presunçosos, mais deletérios para a vida social que os micróbios da tuberculose ou o da sífilis para a beleza e a saúde física dos corpos. O estudantezinho que sabe um pouco de latin e de história, o advogadozinho que conseguiu arrancar uma licenciatura devida à desídia e à irresponsabilidade dos professores, crêem que são distintos e superiores inclusive ao melhor operário especializado, o qual cumpre na vida uma tarefa bem precisa e indispensável e vale em sua atividade cem vezes mais que esses outros nas suas. Isso, porém, não é cultura e sim pedantismo; não é inteligência e sim intelecto, e é justo reagir contra.

A cultura é coisa muito distinta. É organização do eu interior, apoderamento da personalidade própria, conquista da superior consciência por meio da qual se chega a compreender o valor histórico que se tem, sua função na vida, seus direitos e seus deveres. Tudo isso, porém, não pode ocorrer por uma evolução espontânea, por ações e reações independentes da vontade de cada um, como ocorre na natureza vegetal e animal, na qual cada indivíduo se seleciona e especifica seus próprios órgãos insconscientemente, pela lei fatal das coisas. O homem é sobretudo espírito, ou seja, criação histórica e não natural. De outro modo não se explicaria porque, tendo havido sempre explorados e exploradores, criadores de riqueza e egoístas consumidores dela, não se tenha realizado ainda o socialismo. A razão é que só paulatinamente, extrato por extrato, tem conseguido a humanidade consciência de seu valor e conquistado o direito a viver com independência dos esquemas e dos direitos de minorias que se afirmaram antes historicamente. E essa consciência não foi formada sob o estímulo brutal das necessidades fisiológicas e sim pela reflexão inteligente de alguns, primeiro, e logo, de toda uma classe sobre as razões de certos fatos e sobre os meios melhores para convertê-los, na ocasião em que eram de vassalagem, em símbolo de rebelião e de reconstrução social. Isso quer dizer que toda revolução tem sido precedida por um intenso trabalho de crítica, de penetração cultural, de permeação de idéias através de agregados humanos a princípio refratários e só atentos a resolver no dia-a-dia, na hora-a-hora, e para si mesmos seu problema econômico e político, sem vínculos de solidariedade com os demais que se encontravam nas mesmas condições. O último exemplo, o da Revolução francesa. O período cultural anterior, chamado de Iluminismo e tão difamado pelos críticos fáceis (ingênuos e precipitados)[1] da razão teorética, não foi, ou não foi, ao menos completamente esse revoluteio de inteligências superficiais e enciclopédicas que discorriam sobre tudo e todos com uma uniforme impertubalidade, que acreditassem ser homens de seu tempo uma vez lida a Gran Eciclopedia de D’Alembert y Diderot; não foi, em suma, só um fenômeno de intelectualismo pedante e árido, como o que hoje temos diante de nós e encontra seu maior desdobramento nas Universidades populares de ínfima categoria. Foi uma revolução magnífica por meio da qual, como agudamente observa De Sanctis na Storia della letteratura italiana, se formou por toda a Europa como uma consciência unitária, uma Internacional espiritual burguesa sensível em cada uma de suas partes às dores e às desgraças comuns, e que era a melhor preparação da rebelião sangrenta logo ocorrida na França.

Na Itália, na França e na Alemanha se discutiam as mesmas coisas, as mesmas instituições, os mesmos princípios. Cada nova comédia de Voltaire, cada panfleto novo, era como a chispa que passava pelos fios, já estendidos entre Estado e Estado, entre região e região, e se achavam os mesmos consensos, as mesmas oposições em todas as partes e simultaneamente. As baionetas do exército de Napoleão encontraram o caminho já aplainado por um exército invisível de livros, de opúsculos, derramados desde Paris a partir da primeira metade do século XVIII e que haviam preparado aos homens e às instituições para a necessária renovação. Mais tarde, uma vez que os fatos da França consolidaram de novo a consciência, bastava um movimento popular em Paris para provocar outros análogos em Milão, em Viena e nos centros menores. Tudo isso parece natural, espontâneo aos facilones, mas na realidade seria incompreensível se não se conhecesse os fatores da cultura que contribuíram para a criação daqueles estados de ânimo dispostos a estourar por uma causa que se considerava comum.

O mesmo fenômeno se repete hoje para o socialismo. A consciência unitária do proletariado se formou ou está se formando através da crítica da civilização capitalista, e crítica quer dizer cultura, e não já evolução espontânea e naturalista. Crítica quer dizer precisamente essa consciência do eu que Novalis punha como finalidade da cultura. Já que se opões aos demais, que se diferencia e faz criar uma meta, julga os fatos e os acontecimentos, para além de si e por si mesmos, como valores de propulsão ou de repulsão. Conhecer a si mesmo quer dizer ser o que se é, quer dizer ser dono de si mesmo, distinguir-se, sair fora do caso, ser elemento de ordem, mas não da ordem própria e da própria disciplina a um ideal. E isso não se pode obter se não se conhece também aos demais, sua história, o discurso dos esforços que hão feito os demais para ser o que são, para criar a civilização que hão criado e que queremos substituir pela nossa. Quer dizer ter noção do que é a natureza, e das suas leis, para conhecer as leis que regem o espirito. E aprendê-lo todo sem perder de vista a finalidade última, que é conhecer melhor a si mesmo através dos demais, e aos demais através de si mesmo. Se é verdade que a história universal é uma cadeia dos esforços que tem feito o homem se libertar dos privilégios, dos preconceitos e das idolatrias, não se compreende porque o proletariado, que quer agregar outro eslabão a essa cadeia, não há de saber como, e por que e por quem tem sido precedido e que proveito pode conseguir desse saber.
_____________________________
[1] Do tradutor
(*) Tradução (do espanhol) de: Josselito Batista de Jesus
Fonte: http://www.lainsignia.org/2000/abril/cul_062.htm

A insuspeitável leveza das vestais

por João de Deus Corrêa*

As criações mitológicas têm uma força extraordinária. São forças ancestrais de preservação da nossa natureza tribal que deram condições de convivência com nossos pares, pois atuam como uma espécie de contrato não escrito, mas ativamente radical. Elas ficam numa reserva dentro de nós e só ganham corpo quando nos avaliamos em situações extremas; então emergem em forma de atitudes de devoção, como agiam as sacerdotisas que se dedicavam ao culto da deusa Vesta, por isso denominadas vestais pelos romanos.

Marcos na história

Em vários momentos nosso lado vestal se manifesta; quando elegemos algo para alvo de nossa ira, muitas vezes impulsionada pela falta de condições de fazer qualquer coisa; com freqüência movida pela culpa de haver omitido. Por que nada fiz para impedir essa tragédia ou tramóia? Por que não fui para as ruas protestar? É o santo direito de perplexidade e conversão, outro daqueles princípios ancestrais, sempre associado à justiça, aliás, outro padrão fundador, não importando se hipócrita ou não.

A história recente está marcada por esses ‘surtos de vestal’, infelizmente atropelando princípio maior, a verdade, tão difícil de ser alcançada pelos dispositivos humanos de observação e julgamento. Os exemplos falam por si: o atentado de 11 de setembro de 2001 sofrido pela mesma nação que incinerou Hiroxima e Nagasaki – dois surtos de justiciamento – em agosto de 1945; os três, movidos por essa perplexidade de vestal. Sem ir longe, basta lembrar o ‘apedrejamento’ dos donos da Escola Base e do senador Ibsen Pinheiro, em espetáculos lastimáveis de pré-julgamento e execução, montado sobre o palco dos meios de comunicação – outras clássicas vestalisses. Jornalistas têm feito de seus espaços verdadeiros cadafalsos, têm se afogado na ira, a pretexto da missão de “cão de guarda” da sociedade, quando sabemos que tudo não passa de notória auto-promoção em prol das vendas do veículo. Eles se vêem como “pautadores” do bem comum, quando nada mais fazem do que executar as propostas de pauta de quem tenha um “peixe” a negociar.

Ópera bufa

Desde 6 de junho estamos vivendo num cenário de ópera, data em que a Folha de S. Paulo, com pompa e circunstância, divulgou a entrevista-mãe pautada e conduzida pelo sr. Roberto Jefferson. Dois dias depois parecia que os veículos eram os pais do ovo de serpente: todos cacarejando ‘postura’. Um ovo podre, com todos os atributos de tal engenho e arte, como se pode demonstrar pontualmente:


Nenhuma originalidade noticiosa – basta lembrar a prorrogação do mandato de José Sarney, sob suspeita de ser às custas de centenas de concessões radiofônicas; a manobra de alteração da Carta Magna para que o sr. FHC fosse reeleito (falou-se em um precinho camarada de R$ 200 mil, per capita). Nem é preciso detalhar os casos Fonte/Cidam, Banco Nacional, Banco Econômico, quando bilhões de reais foram para bolsos da elite.

Nenhuma certeza – é suficiente recordar que a fonte disse explicitamente não ter qualquer prova dos dolos.

Nenhum compromisso com a cidadania – viu-se, de imediato, que se tratava de suicida político, movido pelo ódio, só reagindo ao ser acusado de estar por trás da ‘propinagem’ nos Correios, esta, sim, documentada cinematograficamente e depois confirmada por depoimentos diversos, inclusive do próprio.

Nenhum ato heróico – a ‘deduragem’ estava garantida pela segurança de uma aposentadoria substancial – quando se sabe que esse trabalho ‘enorme’ em Brasília, é arejado por duas grandes férias no ano.

Nenhuma bravura ideológica – o denunciante confessou a prática do ‘caixa dois’ em seu partido e acusou os demais; logo se soube do caso do PSDB, implicando o próprio presidente “vestáltico”, Eduardo Azeredo.

Nenhum sentido figurado – a brancura imaculada do ‘ovo podre’ nada tinha da limpidez sugerida pela cor. No entanto, é o que afirmam os veículos, seguidos por leitores-eco que tomam como verdades comprovadas, hipóteses, antes mesmo de as autoridades empenhadas no discernimento do caso se darem por satisfeitas.

Sacerdotisas ou paspalhos?

Aqui se quis levantar apenas um discreto véu da prudência. Um país que já passou pelas experiências notórias de ‘injusticiamento’ como o nosso, não pode se dar ao luxo de ficar fumando esse ‘baseado’ que já vem ‘malhado’ com o fel da alcagoetagem de quem morre atirando. Temos lições dolorosas demais para nos alertar, no recente contexto nacional; uma delas foi a ditadura última. A democracia foi das maiores vítimas desse massacre da opinião pública, quando ‘revoluções’ e ‘revolucionários’ diversos a espezinharam aqui e o povo ingênuo também aplaudia – sustentados por ‘inteligências’ e veículos perplexíssimos, todos.

A nossa fúria de vestais tende a nos pregar peças, justamente por ser fúria. Estamos nos travestindo de sacerdotisas do bem, mas não passamos de paspalhos nas mãos de veículos mercenários e colunistas boquirrotos, muitos deles só “atores”, como políticos vistosos na CPI, que têm como ‘competência’ apenas o dom púbere da inflamação que atrai holofotes, engravidando o país de sacerdotisas com os pés de barro. Usam as mesmas armas e arrogância da época da Escola Base, quando chegaram a insuflar a população com a bandeira da pena de morte (Hebe Camargo); por pouco a turba não executou a sentença, aliás, como o fez recentemente a também ‘vestáltica’ Scotland Yard contra um brasileiro que saldou com a vida o crime racista de não ter os padrões genéticos tão ao agrado dos súditos da rainha – os mesmos da nossa elite “Daslu”.

Uma coisa é o julgamento de quem pode fazê-lo por direito e domina o protocolo exigido pelo campo específico de operação, incluindo as devidas comprovações. Outra, é a ‘performance’ para a platéia, tanto de políticos quanto de jornalistas, colunistas e a claque sofrível desses últimos, os “ledores”. Fiquemos – agora vestalticamente – com a velha e eterna lição de Victor Hugo (da literatura), pelo menos para que não sejamos carimbados pela fétida produção dos ovos podres – de podres poderes da irresponsabilidade: “A franqueza não consiste em dizer tudo o que se pensa, mas em pensar em tudo o que se diz”.
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João de Deus Corrêa é jornalista.
Fonte: Correio Caros amigos - Edição nº 222 - 4 de outubro de 2005.

OPERAÇÃO BALBOA!

Fausto Wolff.

Escravos somos todos, uns mais, outros menos. O brasileiro que come e tem um teto para dormir não se considera escravo. Se lhe tiram o emprego saberá que é escravo da miséria, da humilhação, da autopiedade e, com algum talento, lhe sobrará o crime como alternativa. Quase uma quinta parte dos brasileiros é vítima da fatalidade: nasceu do esperma errado, longe dos grandes centros, sem nenhuma condição de se desenvolver. Pouco acima estão os escravos urbanos: mendigos, flanelinhas, caixas de supermercados. Em seguida vêm os escravos classe média baixa, motoristas, garçons, bancários; e os escravos da classe média alta, prestadores de serviço com nível universitário e pequenos empresários.

Finalmente, 1% da população que nos escraviza mas que também é escrava da fatalidade - caso contrário, o que seria dos seqüestradores?
Toda essa macacada mentindo, traindo, bajulando, roubando, sofrendo, obedecendo sem saber bem qual o seu objetivo, além daquele de continuar em movimento.
Macaqueamos os Estados Unidos sem jamais olhar para a América Latina. Sabemos a marca do desodorante íntimo de Madonna mas desconhecemos o nome de qualquer grande artista latino-americano. A América sempre foi a nossa Meca.

Agora, porém, ela está se transformando no grande império neoliberal, que é o mesmo escravagismo feudal com novo nome. Os americanos adotaram a pax romana: invadem, desculturalizam e colonizam. Definitivamente. O americano médio é igualzinho ao brasileiro médio, mas tem casa, comida, saúde, educação, aposentadoria. O americano médio é até mais burrinho que o brasileiro, pois acredita-se o umbigo do mundo e não vê razão para conhecer a história de loosers, ou seja, de países onde pessoas usam turbantes na cabeça, têm pele cor de barro ou olhos puxados. Nosso racismo, entretanto, abrange os pobres em geral. Nos Estados Unidos matam os negros (a grande maioria de pobres desempregados) com ciclones e terremotos, que preferem guetos e favelas, ou com drogas, como fez há anos o FBI, ao distribuir toneladas de cocaína em todos os cortiços negros do país. Em compensação, os republicanos chamam para cargos importantes (mas sem poder de decisão) os negros que se destacam na corrida com os brancos, embora tenham de correr muito mais. Colin Powell e Condoleeza Rice são apenas dois dos muitos exemplos.

Bush e seus tycoons estão como o diabo gosta. O mundo se neoliberalizou, a China ficará para o futuro, a Rússia virou um lupanar, a América do Sul, com o Brasil à frente, está bem-comportada e paga juros sobre juros. Mas tem uma pedra dentro do sapato de Bush. Chama-se Hugo Chávez. Poucas pessoas sabem, mas o presidente da Venezuela doou milhões de dólares para o governo da Louisiana e para a Cruz Vermelha de Nova Orleans. Os miseráveis que Bush ignorou foram auxiliados por Chávez.

Depois disso este homem, que se destaca entre os poucos estadistas de vulto, esteve nas Nações Unidas e declarou que a casa está se tornando uma filial do Pentágono e que seu modelo se exauriu. Pediu ainda a mudança da sede para uma cidade realmente internacional, com soberania própria.

Leitores, devemos rezar para nossos deuses para que Chávez não sofra um acidente, pois o psicopata que manda no mundo não quer outra Cuba e, principalmente, uma Cuba com petróleo. A Venezuela acabou de alfabetizar o último milhão e meio de analfabetos num país de 25 milhões de habitantes. Três milhões de venezuelanos excluídos pela pobreza agora cursam primeiro e segundo graus.

Dezessete milhões têm acesso à medicina gratuita e de boa qualidade. Milhões de quilos de comida subsidiada são transferidos para metade da população. Foram criados 700 mil novos empregos, reduzindo em 9% o desemprego.

É por isso, e só por isso, que os Estados Unidos vão invadir a Venezuela. Antes que ela contamine toda a América Latina com sua alegria que não se dobra.

Para tanto já estão realizando manobras na vizinha ilha de Curaçao. A operação chama-se Balboa, o nome que Stallone adotou para o boxeur de seu primeiro filme que depois tornou-se um ícone ianque, uma mentira, enfim. Como não tinham um campeão branco, inventaram um no cinema.