domingo, 10 de fevereiro de 2008

“órísás – homenagens”

Órísás – Homenagens é o título da exposição de autoria de Carlos Francisco. E para tecer algumas palavras sobre o excelente trabalho, nada melhor que o próprio autor. Assim, fiquem pois com o texto de apresentação da mostra que ora ocorre no Terreiro do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco, na Casa de Clutura Afro-brasileira CASA de ANGOLA.


ÒRÌSÀS – HOMENAGENS

São Paulo, fevereiro de 2008


Bisneto de escravos, cresci entre a Capital Mineira, em Santa Tereza, bairro de classe média e de população negra minoritária, e Pinhões, antigo quilombo situado no distrito rural da cidade histórica de Santa Luzia /MG. Ali onde viveu meu bisavô (Valeriano Rodrigues, o Seu Valu, escravo liberto) e ainda vivem muitos parentes.

Em meio às festas católicas de Nossa Senhora do Rosário, do Divino Espírito Santo, dos dançantes que as celebravam com o congado e folia de Reis, havia uma tia rezadeira que cultivava e sabia tudo de plantas medicinais. Uma outra que tinha visões. Uma outra que benzia. Um tio que sabia simpatias pra tudo. Outro falava com os espíritos. E tantos outros... Mas nada disso significava. Éramos católicos.

O tempo passou. o canto da encantaria me conduziu à vivências; à prosas com os velhos sabidos; à leitura do Prof. Prandi , à obra do mestre Fatumbi... À luz da cultura ancestral (com a qual finalmente me identifico e identifico meus parentes), não mais descendo de escravos. Mas de um povo empreendedor, guerreiro, nobre, mestre na arte de viver em harmonia com a natureza e que anda por aí a construir o mundo.

Expatriados e espoliados de todas as maneiras possíveis, herdamos a condição de escravos, subempregados, sub-gente. Mas não é o que somos.

Somos médicos, advogados, artesãos, geógrafos (Viva o prof. Milton Santos), antropólogos, escritores, músicos, atores, cientistas, místicos, romancistas, guerreiros, enfim, gente da melhor qualidade, descendentes dos O r i x á s.




“ÒRÌSÀS – HOMENAGENS” é um modesto agradecimento aos tantos ensinos dos mitos, dos búzios, do zêlo.

Modesta e respeitosamente:

─ Peço licença a Exu
─ Peço licença a Oxalá
─ Peço licença a Ogum
─ Peço licença a Iemanjá
─ Peço licença a Ossanha
─ Peço licença a Xangô
─ Peço licença a Iansã
─ Peço licença a Oxaguiã
─ Peço licença a Oxossi
─ Peço licença a Oxumaré
─ Peço licença a Oxum
─ Peço licença a Obaluaiê
─ Peço licença a Nanã
─ Licença a todos os orixás
─ Licença ao povo de santo

...para mostrar 15 trabalhos em pastel seco sobre papel, inspirados a partir dos elementos, símbolos e cores de alguns dos Orixás. Modesta homenagem aos ORIXÁS da nação Keto mas também aos VODUNS da nação Jêje e aos INKICES da nação Angola. Poder compartilha-la neste importante e fundamental centro de preservação e difusão da cultura negra é uma satisfação e um grande orgulho.

Através do Selito e do Fábio, meus sinceros agradecimentos a todos da CASA DE ANGOLA e do PROJETO NOSSO SAMBA pelo honroso convite.

Axé para todos,

Carlos Francisco


BREVE CURRÍCULO

Sobre a experiência profissional, segue abaixo breve currículo que mostra-nos bem como o autor Carlos Francisco é bastante dinâmico quanto às atividades que desenvolve. Senão vejamos:

Experiência Profissional


TEATRO

Ator e responsável técnico pelo Galpão do Folias.

2007 - “Orestéia – O canto do bode”- Reinaldo Maia (trilogia de Ésquilo)
Direção: Marco Antonio Rodrigues – Galpão do Folias - ATOR

2004 – “Nada Mais Foi Dito Nem Perguntado” de Luis Francisco Carvalho Filho –Galpão do Folias – São Paulo – DIREÇÃO

2003 - “Otelo” de Willian Shakespeare ,direção de Marco Antonio Rodrigues – Galpão do Folias – São Paulo - ATOR

2001 – “Babilônia” de Reinaldo Maia, direção de Marco Antonio Rodrigues – Galpão do Folias – São Paulo – ATOR

2000 – “Happy End” de Elizabeth Halptman , direção de Marco Antonio Rodrigues – Galpão do Folias - São Paulo - ATOR

1999 – “Surabaya, Johnny!” roteiro de Reinaldo Maia, direção de Dagoberto Feliz – Teatro Aliança Francesa - São Paulo - ATOR

1998 – “Folias Fellinianas” de Reinaldo Maia, direção de Marco Antonio Rodrigues – Teatro Aliança Francesa – São Paulo – ASSISTENTE DE DIREÇÃO

1997 – “O Assassinato do Anão do Caralho Grande”* de Plínio Marcos, Direção de Marco Antonio Rodrigues – Teatro Sérgio Cardoso - São Paulo – ATOR

* Prêmio de melhor ator XVIII Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto
1990 – “Tá Rindo do Quê?” Criação Coletiva, direção Enio Reis – Teatro Palácio das Artes , sala João Ceschiatti Belo Horizonte/MG

1989 – “Pétalas da Solidão” de Anton Tchecov (adaptação contos Feiticeira e Fatalidade) direção Luiz Carlos Moreira – Teatro Francisco Nunes – BH / MG

1988 – “Hoje é dia de Rock” de Jose Vicente, direção de Alexandre Colla - Auditório Escola de Medicina – Belo Horizonte / MG


LEITURAS

“O Holandês” de Emile Baraka. Praticável do Folias

“Zé” de Fernando Marques, direção de Marco Antonio Rodrigues – Galpão do Folias

“O Gadjo Aprendiz” de Plínio Marcos direção de Marco Antonio Rodriguies – Galpão do Folias

“Os Azeredos e os Benevides” Direção de Marco Antonio Rodrigues em ciclo produzido pelo Grupo TAPA.

“Homens de Papel” de Plínio Marcos, direção de Marco Antônio Rodrigues
Ciclo Gastão Trojero


CINEMA

“Último Chá” - longa - David Kourloc – 2007

“Maldito acaso” - curta - Grupo Cinema de Guerrilha – 2005

“O casamento de Romeu mais Julieta” – longa – Hugo Georgette - 2004

“Fausto Verdoux” – curta – Fábio Carvalho – 1992


TV

“Alice” - Episódio 7 – HBO

“Carandiru a série” - Episódio Ao mestre com carinho -Valter Carvalho - Globo


RÁDIO

Programa Palco Sonoro - Rádio Cultura FM
A Morte do Caixeiro Viajante – Maio/ 2007


OUTROS TRABALHOS

2004 - Produtor Operacional CÉU – Centro de Ensino Unificado- Parque Veredas
Secretaria de Cultura – Prefeitura Municipal de São Paulo


ARTES PLÁSTICAS

Autodidata, desenvolve um trabalho protagonizado por figuras de negros e em menor escala de índios, em cenários que vão do cotidiano às festas populares e religiosas; de ambientes rurais ou primitivos às comunidades das periferias dos grandes centros.

Realiza sua pesquisa tendo como principais materiais:

─ Tinta acrílica sobre tela;

─ Madeira e papel;

─ Pastel seco;

─ Pastel óleo e carvão s/ papel.


EXPOSIÇÕES

“Impressões Geométricas” (individual)
Espaço Cultural da Agência Rio Branco
Banco do Brasil / São Paulo 1994
-25 trabalhos em acrílica s/ papel
8 estruturas geométricas em varetas de madeira

Sem título (coletiva )
CEU Parque Veredas / SP 2004
-03 trabalhos em acrílica s/ papel
Temáticas diversas

Sem título (coletiva )
Café do Teatro Galpão do Folias / São Paulo
- 6 trabalhos em pastel seco s/ papel
Temáticas diversas
Agosto a novembro de 2005

“Òrìsàs – homenagens” ( individual )
- 15 trabalhos em pastel seco s/ papel
inspirados em elementos, símbolos e cores de alguns orixás.
Bar e Restaurante “ Rota do Acarajé ”/ São Paulo
Junho de 2007

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

encontro de rodas de samba de comunidades de são paulo

TERREIRO PAULISTA

Em comemoração ao Dia Nacional do Samba

A data na qual se comemora o *Dia Nacional do Samba* é 02 de dezembro, todavia, a celebração tem início já no sábado dia 1º quando ocorrerá o Encontro de rodas de samba de comunidades de São Paulo com a participação das seguintes comunidades:


Samba da Laje

Samba da Vela

Pagode do Cafofo

Berço do Samba de São Mateus


Ainda estarão presentes como comunidades convidadas:


Samba de Roda de Pirapora do Bom Jesus

e

Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco.




O Encontro das Rodas de Samba acontecerá a partir das 13h00 até as 19h00 no estacionamento da Praça Roosevelt que será transformado num terreiro. Haverá apresentações das Rodas de Samba de cada Comunidade e possivelmente uma Roda com integrantes de todas elas. Cada Comunidade terá sua tenda/barraca onde serão vendidos materias diversos (camisetas, bonés, CDs etc.) A partir das 19h00, num palco instalado na Rua João Guimarães Rosa, ao lado do estacionamento, acontecerá um show com as presenças de Graça Braga, Orquestra de Samba e Choro de São Mateus e a Velha Guarda da Camisa Verde e Branco. Durante o espetáculo haverá homenagem a Osvaldinho da Cuíca.


Data: o1 de dezembro de 2007
Horário: das 13h00 as 22h00
Local: Estacionamento da Praça Roosevelt e Rua João Guimarães Rosa, São Paulo.

Entrada Franca

Realização: Ação educativa e Campomare Produções e Eventos.
Organização: Samba da Vela, Samba da Laje, Pagode do Cafofo e Berço do Samba de São Mateus.
Apoio: Cecretaria de Cultura do estado de São Paulo, Prefeitura de São Paulo - Sub-Prefeitura da Sé, Câmera 1 - Stúdio Fotográfico, Bar Você vai se Quiser e Ação Local.

Contato:
Eleilson Leite, email: eleilson@acaoeducativa.org
Adriano José, email: adriano@acaoeducativa.org
3151-2333 ramais 165/166/153


quinta-feira, 22 de novembro de 2007

PNS convida você para última Roda de Samba!

Salve, salve, salve Gente boa gente do samba ou simpatizante! O Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco convida você a participar de sua última Roda de Samba deste ano, em sua sede, na Casa de Cultura Afro-Brasileira CASA de ANGOLA que acontece neste domingo, 25 de novembro deste ano de 2007, como sempre, a partir das 16h00.

Como estamos no mês de novembro, marcado por atividades ligadas à formação da CONSCIÊNCIA NEGRA, nossa Roda de Samba que traz na sua essência a questão do negro, logicamente terá também essa marca que será contundentemente explicitada com a participação de nossos convidados, a saber:



Kabengele Munanga, Professor Titular do Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo que estará conversando conosco sobre Cotas;



Serginho Poeta que nos brindará com declamações de algumas de suas belas e engajadas poesias constantes no livro DONDE MIRAS: DOIS POETAS E UM DESTINO escrito em parceria com o Poeta Binho e que estará disponível para compra;



E Regyna Santos (do PNS) com sua Exposição Fotográfica: QUANDO ROSÁRIO REINA que se trata de uma pequena mostra da imensa e complexa riqueza que são as festas no universo do Rosário;

Além, é óbvio, da tradicionalíssima Roda de Samba cujos tambores, vozes e harmonias ecoaram evocando orixás, nkises e santos para a celebração do encerramento das atividades em nosso Terreiro neste ano em que completamos nove primaveras e com muito vigor e saúde, com muita garra para seguirmos firmes em nossa luta em prol da nossa cultura afro-brasileira.

Contamos com a sua presença... de corpo e alma, certo?

Saudações Sambísticas!!!

terça-feira, 23 de outubro de 2007

O Samba é nosso espírito, nossa alma... é nossa cultura!

Baluarte: Hélio Romão de Paula - O Hélio Bagunça!
(1935-2007)

Foto: Edson (Unegro) / 2004

Salve, salve gente boa gente do samba! Chegamos a mais uma celebração de mais um ano de luta, desta feita o 9º (nono), do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco. E não tem sido fácil! Mas o que importa é que seguimos firmes fazendo aquilo que cremos ser, nada mais que, nossa obrigação, a saber: zelar pelo que é nosso. E nosso é o samba que é nossa cultura, nossa identidade, que marca nossos costumes, enfim, substancia a nossa vida, o nosso viver, posto que é o nosso espírito – a nossa alma – que zela por nós que por ela zelamos.


Verde, amarelo, azul e branco, são as cores que estampam o pavilhão! – Foto: Jucélia Pereira / 2003

Alma – é isto o que o samba é. E assim como, por exemplo, os maracatus, candomblés, jongos, congados, carimbós, capoeiras, etc. também o samba é muito mais que musicalidade, mais que música que comumente é compreendida de modo equivocado e superficial, esvaída da essência que lhe é dada pelo conjunto dos outros elementos (valores) que constituem a cultura. Deste modo, o samba, queda reduzido de cultura a gênero musical meramente. Ora, a música (a musicalidade) é apenas um dos elementos constituintes do conjunto de valores denominado cultura, aos quais permeia e por eles é permeada.

O que queremos dizer com isto? Muito simples! Alma e cultura são sinônimos. A propósito, vamos a algumas definições conceituais:

Segundo o dicionário - cultura é: ato, efeito de cultivar, desenvolvimento intelectual, saber; utilização industrial de certos produtos naturais; estudo, elegância; esmero; conjunto dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores morais e materiais, característicos de uma sociedade; civilização (http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx);

Para a Filosofia - cultura é o conjunto de manifestações humanas que contrastam com a natureza ou comportamento natural (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura);

Para as Ciências Sociais, cultura - (latu sensu) é o aspecto da vida social que se relaciona com a produção do saber, arte, folclore, mitologia, costumes, etc., bem como à sua perpetuação pela transmissão de uma geração à outra (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura);

Já para a Sociologia - o conceito de cultura tem um sentido diferente do senso comum. Sintetizando: simboliza tudo o que é apreendido e partilhado pelos indivíduos de um determinado grupo e que confere uma identidade dentro do seu grupo de pertença. Na sociologia não existem culturas superiores, nem culturas inferiores pois a cultura é relativa, designando-se em sociologia por relativismo cultural, isto é, a cultura do Brasil não é igual à cultura portuguesa, por exemplo: diferem na maneira de se vestir, na maneira de agir, têm crenças, valores e normas diferentes... isto é, têm padrões culturais distintos (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura);

E, para a Antropologia - cultura é entendida como a totalidade de padrões apreendidos e desenvolvidos pelo ser humano. Segundo a definição pioneira de Edward Burnett Tylor, sob a etnologia (ciência relativa especificamente do estudo da cultura) a cultura seria “o complexo que inclui conhecimento, crenças, arte, moral, leis, costumes e outras aptidões e hábitos adquiridos pelo homem como membro da sociedade”. Portanto, corresponde, neste último sentido, às formas de organização de um povo, seus costumes e tradições transmitidas de geração para geração que, à partir de uma vivência e tradição comuns, se apresentam como a identidade desse povo (http://pt.wikipedia.org/wiki/Cultura).

Bem, de forma sintetizada, estas são algumas definições de cultura segundo algumas áreas do conhecimento. Com isso, mais o que apreendemos da nossa própria história de vida e da história dos nossos em pertença, podemos dizer e afirmar que todos os povos, todas as pessoas, possuem cultura. Logo, todo indivíduo é possuidor de cultura, pois pertence a um grupo de indivíduos; e a vida em grupo demanda regras e normas de conduta que pautam todas as ações/relações e zelam por uma boa e saudável convivência.

A fim de melhor expressarmos o que foi dito: o grupo de indivíduos constituído pelo Projeto Nosso Samba possue uma identidade que é nossa, particular, e que nos difere de outros grupos de indivíduos como, por exemplo: a Comunidade Samba da Vela, o Projeto Cultural Samba Autêntico, o Projeto Samba de Terreiro de Mauá, o Projeto Samba de Todos os Tempos, o Terra Brasileira, o Terreiro Grande e outros mais, cada qual com sua identidade, com sua particularidade. E é justamente o conjunto de elementos característicos e próprios de cada grupo que o diferencia dos demais e, conseqüentemente, faz aproximarem-se os indivíduos que lhe são internos, dando-lhes uma identidade própria e singular. Tais elementos implicam os costumes, o jeito de ser, os hábitos, os valores adotados e que marcam e são marcados pelo dia-a-dia, pelo cotidiano. É óbvio que muitos grupos possuem características comuns que os aproximam constituindo, então, um grupo maior marcado por uma universalidade dada pelas tais características gerais - é o caso dos exemplos utilizados, todos do samba.

Mudando de escala, não é demais lembrarmos que, p. e., os grupos humanos originários de África e seus descendentes pelo mundo, são bastante diferentes entre si, porém iguais quando comparados com outros grupos humanos de origem: européia, asiática, ameríndia e da oceanía e seus respectivos descendentes pelo mundo e que também são internamente diferentes entre si e, todavia, iguais quando comparados com cada um dos demais grupos humanos.

A essas diferenças e igualdades correspondem diversificadas e semelhantes visões de mundo, todas válidas. Não há uma que seja naturalmente hegemônica, o que há é uma construção ideológica de uma hegemonia que impõe a cosmovisão ocidental judaico-cristã a tudo e a todos, aplicando a coisas bastante distintas uma solução única guiada por uma forma de interpretação única – uma fábula.

M. C. Projeto Nosso Samba em apresentação no SESC Piracicaba – Foto: Regyna Santtos / 2003

Assim, no intuito de desvelar a tal fábula, o Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco chega aos 9 (nove) anos de idade celebrando a continuidade da incansável luta de resistência, afirmação e manutenção da cultura, da identidade do povo Afro-Brasileiro, travada cotidianamente desde a chegada do primeiro contingente de africanos escravizados na Terra Brasilis. Foram e são muitos guerreiros, muitas guerreiras que compuseram e compõem as diversas frentes representadas pelos maracatus, candombes, candomblés, catimbós, capoeiras, umbandas, congados, tambores de mina e ainda muitos outros dentre os quais os sambas espalhados por todos os cantos do Brasil.

Nós da frente formada pelo Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco, uma das muitas constituídas pelo samba, fazemos questão de manter a nossa bandeira, que é a do samba, hasteada o tempo todo e não ocasionalmente. Como já foi dito, o samba é nossa cultura, logo, é nossa alma e - sem alma não há vida – sem ela não vivemos.

Devemos nos reverenciar a nós mesmos... e aos nossos: nossa linhagem – Foto: Edson (Unegro) / 2004

São muitas as referências; muitos os exemplos nos quais nos miramos e dos quais destacamos, um, aqui e agora: Hélio Romão de Paula, o Seu Hélio, o Tio Hélio, o Hélio Bagunça! Figura reta, impar, exemplar. Foi um batalhador, brigou muito pelas coisas da nossa gente boa gente preta. O baluarte nos deixou neste ano de 2007, partiu para tornar-se um ancestral. Mas nos deixou reforçada a idéia de que cultura é alma e que, portanto, é algo que não se vende; do qual não se desprende e cujo sentido só é mensurado e, realmente, importa a ninguém mais do que o seu portador. Afinal por que motivo alguém desejaria a alma de outro?

A memória de Hélio Bagunça é aqui evocada com um propósito: o de reforçar a importância de se conhecer nossa própria história e a de nossa gente, pois é daí que nos vem a substância que nos torna plenos – inteiros. Só podemos nos fortalecer a partir de nós mesmos e dos nossos. Não adianta querermos buscar a essência dos/nos outros, por mais que de alguma forma nos sejam referência. Acontece que as referências até podem, mas, em hipótese nenhuma devem nos chegar mediadas pela cultura industrializada: a cultura tornada coisa vendável – mercadoria. Temos que nos libertar.

Para ser bem explícito, somos, a exemplo de muitos companheiros (as), paulistas, de nascimento ou não, vivemos em São Paulo, não somos cariocas (ou fluminenses). Devemos sim conhecer e reverenciar aos irmãos de samba de todos os cantos, aos mestres, os números baixos (os anciãos – a velha guarda) onde quer que estejam e de onde quer que eles sejam; mas, principalmente, devemos nos reverenciar a nós mesmos e aos nossos.

O estandarte e o Baluarte Hélio Bagunça (Homenagem em vida) – Foto: Jucélia Pereira / 2003

Para tanto, insisto, devemos buscar conhecer a nossa história própria, a história daqueles (as) que nos cercam, vivem ou viveram em nosso entorno mais imediato: o nosso entorno da vida - o entorno da nossa vida. É preciso que conheçamos; faz-se necessário que saibamos mais de nós mesmos e dos nossos para que possamos dar continuidade à nossa linhagem. Temos a responsabilidade de melhor conhecer a nós mesmos para seguirmos, darmos seguimento, garantirmos o nosso futuro que será vivido e vivenciado pelas gerações futuras as quais receberão de nós, para que ponham suas marcas, o legado que recebemos com a marca de nossos antecessores e no qual temos agora que colocar a nossa marca, pois só assim seguiremos mais e mais fortalecidos – fortes. Somos nós, não somos os outros; somos os nossos, não somos os dos outros. Caminharemos muito mais e melhor a partir de nossa própria história. Não se trata de negar e nem desrespeitar a história do outro.

Esta é a mensagem do Movimento Cultural PROJETO NOSSO SAMBA de Osasco neste ano da celebração de seus nove anos de existência guerrilheira. Saudações Sambísticas!¨

Selito SD