domingo, 23 de outubro de 2005

Antônio Candeia Filho, o Mestre Candeia: 70 anos

Menino de Oswaldo Cruz, filho de portelense tradicional, jovem compositor campeão de nosso carnaval, um dos maiores vencedores de sambas da Portela, maior partideiro de todos os tempos, fiel defensor da nossa cultura popular...

Candeia. Fogo intenso do samba, chama imortal da arte, luz que inspirou todos os apaixonados pela verdadeira cultura brasileira, guerreiro que mesmo sem andar difundiu sua mensagem em forma de canção...

Definí-lo é uma árdua tarefa. Foram apenas 43 anos, mas 43 anos vividos intensamente, como se Candeia pressentisse que seu tempo seria curto.

Quando criança, ele lamentava que suas festas de aniversário não tinham crianças. Seu pai, Antônio Candeia, aproveitava o 17 de agosto para chamar os amigos adultos para um longo pagode temperado a feijão e cachaça.

De tanto ouvir, tornou-se precocemente um mestre do samba. Aos 17 anos, venceu a disputa de sambas-enredos na Portela para o Carnaval de 1953. Ao lado do parceiro Waldir, (59), ainda venceria outras cinco vezes na escola.

Quando mais novo, como não tinha habilidade para jogar bola, foi ser centroavante rompedor. Fazia gol de ombro, do jeito que desse. Jovem forte, tornou-se um policial severo, violento mesmo. Dava duras em prostitutas e supostos malandros – certa vez abordou o ainda desconhecido Paulinho da Viola, em um salão de sinuca – e prendia sem parcimônia. Candeia queria ser bom em tudo. Se era policial, tinha que prender.

A rima de valentia com boemia lhe custou caro. Na manhã de 13 de dezembro de 1965, ao voltar de uma noitada, Candeia se envolveu em uma briga de trânsito no centro do Rio. Esvaziou a tiros os pneus do caminhão que se chocara com seu carro. Em resposta, o dono do caminhão atirou cinco vezes. Uma bala pegou a medula e o deixou paraplégico. Candeia, assim, estava condenado a viver pelo resto da vida “sentado em trono de rei”. A cadeira de rodas torna-se sua amiga inseparável. No início foi difícil, mas Candeia conseguiu recuperar a alegria pela vida.

Sua música cresce em qualidade, suas canções despontam definitivamente para a glória, retratando sua própria situação, apesar da dor. Era a vida que continuava.

A partir do final dos anos 60, Candeia assumiu uma atitude praticamente inversa à do policial repressor, transformando o seu sofrimento em matéria-prima de uma reviravolta típica dos heróis trágicos.

Tornou-se um líder político, mas não partidário, o que era quase impossível naqueles anos da ditadura. Foi um porta-voz da cultura negra, dos sambistas alijados das escolas de samba cada vez mais comerciais e de um nacionalismo que incomodava, numa época em que só era bom para o Brasil o que fosse bom para os EUA.

Inconformado com os rumos que as escolas de samba estavam tomando, Candeia funda o Grêmio Recreativo de Arte Negra, Escola de Samba Quilombo, no dia de dezembro de 1975. A função da Escola de Samba Quilombo seria preservar o que seu fundador considerava ser a verdadeira essência das escolas de samba, ou seja, um movimento de resistência, como ele explicava. O Quilombo não competiria, não traria a preocupação com a parte estética, cada vez mais acentuada nas escolas já na década de 70. Além da resistência cultural, o Grêmio Recreativo de Arte Negra, Escola de Samba Quilombo também trouxe para a comunidade de Coelho Neto, onde se localizava, uma série de iniciativas sociais, propagando os valores culturais da população negra.

A luta pela preservação da verdadeira cultura brasileira, e da valorização do negro em nossa sociedade, tomaria os últimos dias da vida de Candeia. Suas músicas expressam constantemente essa preocupação.

A influência estrangeira nos jovens das comunidades carentes estaria afastando-os dos valores de seus antepassados, tornando mais difícil a consciência de grupo, fundamental para a superação da situação subalterna à qual os negros estavam submetidos. Candeia percebia isso, e usava a música para transmitir suas mensagens.

No dia 16 de novembro de 1978, Candeia falecia no hospital Cardoso Fonte, em Jacarepaguá, vítima de parada cardíaca, conseqüência de infecção generalizada. Morria o sambista, nascia o mito. Depois de sua morte, soubemos que a ditadura o vigiava, porque ele tinha uma postura rebelde e estava mobilizando estivadores e outros grupos esquecidos.

Mais de 25 anos após sua morte, Candeia continua sendo lembrado como o maior partideiro de todos os tempos. Suas músicas são sempre citadas como exemplo. Aqueles que viveram seu tempo lembram com saudades; os mais jovens aprendem suas canções com respeito e admiração.

Candeia é a eterna “luz da inspiração”, inspiração para os poetas e lideranças negras que seguiram seu ideal. Sua mensagem permanece viva, suas preocupações hoje são mais atuais do que nunca, e assim o mestre se perpetua. Candeia foi assim, é assim, será assim. Simplesmente Candeia!

3 comentários:

Daiane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daiane disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Daiane disse...

Olá!

Estou realizando um projeto de pesquisa sobre o Grêmio Recreativo de Arte Negra Escola de Samba Quilombo e achei seu blog sensacional. Gostaria imensamente,caso fosse possível, que você me ajuda-se com mais informações. Seria maravilhoso se trocássemos algum conhecimento tanto sobre a Escola quanto sobre a vida de Candeia.

Meu nome é Daiane Ramos e meu e-mail de contato é daiane.ramos.puc@gmail.com
abraços e aguardo ansiosa sua resposta.